Após queda de 7% em maio, Bolsa encara junho com incertezas externas e ruído eleitoral
Com saída de capital gringo, indefinição sobre a guerra no Oriente Médio e avanço da pauta das eleições presidenciais, analistas projetam um junho mais volátil para Ibovespa e dólar
5/29/20265 min ler


[CONTEÚDO EXCLUSIVO - ESTADÃO / E-INVESTIDOR]
Após queda de 7% em maio, Bolsa encara junho com incertezas externas e ruído eleitoral.
Com saída de capital gringo, indefinição sobre a guerra no Oriente Médio e avanço da pauta das eleições presidenciais, analistas projetam um junho mais volátil para Ibovespa e dólar.
O Ibovespa encerrou maio com queda de 7,22%, aos 173.787 pontos — o pior desempenho mensal desde fevereiro de 2023 — e entra em junho pressionado por um ambiente externo instável e pelo avanço das incertezas eleitorais no Brasil. Na avaliação de analistas, o mercado deve enfrentar um mês com investidores atentos tanto à dinâmica dos juros quanto aos desdobramentos políticos e geopolíticos, em um cenário que tende a limitar o apetite por risco e o fluxo estrangeiro que vinha dando suporte à Bolsa.
No câmbio, a tendência é de um dólar mais volátil ao longo de junho, refletindo tanto as incertezas no cenário externo quanto o avanço da pauta eleitoral doméstica. Para analistas, a combinação de juros ainda pressionados e aumento do prêmio de risco deve manter a moeda americana oscilando em uma faixa mais ampla frente ao real.
Parte dessa volatilidade no câmbio está ligada ao cenário externo, que segue no radar dos investidores diante das incertezas geopolíticas.
Os mercados continuam atentos às negociações entre os Estados Unidos e o Irã para o fim da guerra no Oriente Médio. Apesar dos flertes recentes entre os dois países para um acordo de paz, nenhum avanço concreto surgiu e há uma expectativa para que isso ocorra nas próximas semanas.
O “trade” que favorecia emergentes perdeu força e, mesmo com a resiliência inicial mostrada pelo Ibovespa em razão da importância de Petrobras e do setor de energia e commodities, o índice começa agora a mostrar uma vulnerabilidade maior à mudança de direção do capital estrangeiro, fundamental para a série de recordes que vinham desde o fim de 2025.
“Se nas semanas anteriores o mercado alternou entre esperança e frustração com as negociações no Oriente Médio, nesta o roteiro foi semelhante, mas com um elemento adicional: o conflito completou três meses sem resolução definitiva, e o mercado começa a incorporar de forma mais clara a ideia de que o cenário de incerteza pode perdurar”, diz Bruna Sene, analista de renda variável da Rico.
Mercado acompanhou indicadores do setor externo no Brasil e dados de confiança do consumidor nos EUA em dia de agenda internacional relevante.
Na quinta-feira (28), os negociadores de EUA e Irã chegaram a um acordo preliminar para ampliar o cessar-fogo entre EUA e Irã e iniciar uma nova rodada de negociações de 60 dias sobre o programa nuclear iraniano, segundo autoridades norte-americanas ouvidas pelo site Axios e pela TV CNN.
Há expectativa ainda com a possível reabertura do Estreito de Ormuz, por onde transitam cerca de um quinto do petróleo mundial. O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, disse que é difícil saber se Trump assinará um acordo provisório.
Desde o início da guerra, os investidores monitoram o impacto do choque de oferta do petróleo sobre a inflação global. No Brasil, o mercado passou a precificar um ciclo de queda de juros mais curto e com cortes modestos em função do choque de oferta da commodity e seus efeitos na economia doméstica.
Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), os membros do colegiado reconheceram essa desancoragem das expectativas. Em junho, o Copom se reúne nos dias 16 e 17 para decidir os novos passos da Selic.
“Mudanças na comunicação do Banco Central ou revisões nas expectativas para a trajetória da Selic podem impactar o humor dos investidores, especialmente em setores mais sensíveis ao custo de capital”, diz Cássio Viana de Jesus, Diretor de Investimentos e Negócios da Pilar Capital.
Eleição começou
No ambiente doméstico, o tema eleição já deu uma prévia aos investidores sobre o que esperar para as próximas semanas. No dia último 13, o mercado repercutiu a divulgação dos áudios do senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Já nesta sexta-feira (29), um novo episódio de estresse: o Ibovespa foi contaminado com os temores dos investidores em torno dos eventuais impactos da decisão dos Estados Unidos em classificar facções criminosas do Brasil como organizações terroristas.
Há temor sobretudo em relação à insegurança jurídica e a possíveis impactos no mercado financeiro com a medida tomada pelos EUA - operações recentes, como a Carbono Oculto, apontam o envolvimento da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) mesmo no mercado formal.
“Podemos ver desdobramentos na estrutura de compliance de instituições financeiras e potenciais impactos de custos e riscos para exportadores”, acrescenta Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.
Flávio comemorou a decisão dos EUA sobre as facções criminosas do Brasil. A listagem foi um dos pleitos do senador na reunião desta semana com Trump.
Já o governo federal disse, em nota, que a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas por parte dos Estados Unidos ameaça o combate ao crime organizado e citou até o Pix como serviço que pode ser afetado pela ação.
Queda no fluxo de capital estrangeiro
O fluxo de capital estrangeiro perdeu força em maio, mas não o suficiente para reverter o saldo positivo no País. Dados da B3 mostram que, em 2026, a Bolsa Brasileira registra uma entrada líquida de capital externo na ordem de R$ R$ 44,5 bilhões, apesar da saída de R$ 12,4 bi.
Esse movimento reflete tanto um movimento de realização de lucro após o rali do início do ano quanto a busca por proteção.
“Não vejo o mês de junho com bons olhos para o Ibovespa. Pode ser um mês muito mais lateral e até mesmo de queda. É um mês de cautela e fortalecimento de caixa para o investidor”, diz Josias Bento, especialista em Investimentos e sócio da GT Capital
O que esperar do dólar?
O dólar encerrou maio com alta de 1,43%, a R$ 5,0427, em meio à volatilidade tanto do mercado doméstico quanto internacional. Para junho, o cenário não será tão diferente.
Segundo os analistas, as movimentações dos pré-candidatos à presidência, assim como as novas pesquisas de intenções de voto, devem consolidar o início das eleições no Brasil e influenciar em um movimento de apreciação da moeda norte-americana.
“À medida que nos aproximamos do primeiro turno em outubro, qualquer movimento nas pesquisas, indicação de chapa ou ruído fiscal tende a se traduzir em prêmio de risco no câmbio, então o investidor deve se preparar para um dólar trabalhando em uma banda mais larga, e não para uma trajetória linear”, diz André Matos, CEO da MA7 Negócios.
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