Ibovespa sobe mais de 1% e dólar cai mesmo com EUA ameaçando novas tarifas: por quê?

Analistas veem impacto limitado para o Brasil levando em conta a lista de exceções, mas alertam para os possíveis desdobramentos

6/2/20264 min ler

Mais um fator de aversão a risco para o mercado brasileiro? Os ativos domésticos amanheceram com a notícia de que o governo americano propôs a aplicação de tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, no âmbito de uma investigação sobre práticas comerciais consideradas desleais, embora com exceções relevantes como aeronaves, café e alguns insumos, que compõem 73 páginas.

“A medida ainda passará por consulta pública e negociação, mas eleva a incerteza para exportadores brasileiros e pode pressionar câmbio, percepção de risco e visibilidade de setores ligados ao comércio exterior”, avalia a Ágora Investimentos.

Contudo, o mercado brasileiro não sofreu – pelo menos não em um primeiro momento – com a medida. Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa subiu 1,16%, a 174.197,10 pontos, marcando 174.894,05 na máxima e 172.198,54 na mínima do dia. O volume financeiro no pregão somou R$ 22,65 bilhões. Já o dólar caiu 0,24%, aos R$ 5,0098. No ano, passou a acumular recuo de 8,73% ante o real.

Para Rachel de Sá, estrategista da XP Investimentos, o anúncio, num primeiro momento, parecia ter potencial para pressionar os mercados. Ao olhar mais atentamente o conteúdo, porém, a avaliação passou a ser de impacto limitado no curto prazo, levando em conta justamente as exceções. “Por isso, a leitura, por ora, é de que o episódio não é motivo para pânico e tende a fazer pouco preço no dia”, avalia.

Riscos e fluxo estrangeiro

Para Fábio Murad, Sócio e Fundador da Ipê Avaliações, contudo, a proposta deve ser lida como risco macroeconômico real, não apenas como ruído político.

“Mesmo com exceções relevantes, o mercado tende a reagir ao sinal de tensão institucional e comercial entre os dois países, porque isso afeta percepção de risco, fluxo estrangeiro, câmbio e prêmio exigido para investir no Brasil”, avalia.

O especialista aponta que, para o investidor internacional, o problema não está apenas na tarifa em si, mas na possibilidade de o Brasil passar a ser visto como um mercado com maior incerteza regulatória e diplomática, o que pode gerar uma postura mais seletiva em relação à Bolsa, aos fundos, aos ETFs e aos ativos de longo prazo.

André Matos, CEO da MA7 Negócios, destaca que a notícia não pode ser tratada como simples ruído político, mas também não justifica pânico, levando também em conta a grande lista de exceções entre os setores sujeitos à tarifação.

“Sobre a possibilidade de afastar o investidor estrangeiro, sim, há risco, mas indireto. O capital externo não é diretamente atingido pela tarifa, mas é sensível ao prêmio de risco país e à percepção de deterioração da relação bilateral”, aponta, destacando que qualquer ruído adicional pode desacelerar o fluxo ao mercado de ações para o país, que já sofreu uma forte saída em maio. Assim, complementa, o mercado deve tratar a tarifa como risco macroeconômico real, mas dimensionado.

Cassio Viana de Jesus, diretor de investimentos e novos negócios da Pilar Capital, reforça que a decisão anunciada não é uma tarifa em vigor, mas uma proposta formal do USTR, concluindo investigação aberta em julho de 2025 sob a Seção 301. As medidas só entrariam em vigor até 15 de julho, com audiência no dia 6. Há, portanto, janela de negociação.

Além disso, é importante desassociá-la do tarifaço de 2025: a base atual são supostas “práticas irracionais” do Brasil em soberania regulatória sobre plataformas digitais (incluindo o Pix), comércio digital, ordens judiciais a redes sociais americanas, propriedade intelectual, etanol e desmatamento. “Ou seja, é tarifa usada como instrumento de pressão política e regulatória — não resposta a desequilíbrio comercial, até porque, na corrente bilateral, é o Brasil que importa mais do que exporta dos EUA”, aponta.

As isenções também esvaziam o efeito macro, com o dano concentrando em manufaturados e bens de capital de menor peso na pauta micro/setorial, não sistêmico. “Sobre inflação, vale desfazer um equívoco: a tarifa é paga pelo importador americano, recaindo sobre o consumidor dos EUA, não sobre o IPCA. Para o Brasil, o canal inflacionário relevante é indireto, via câmbio”, avalia.

De qualquer forma, no fluxo tático, a proposta de tarifas pode impactar o fluxo estrangeiro para o Brasil. Já no investimento estrutural, o efeito é menor, a princípio.

“O investidor de portfólio reage rápido a risco institucional e imprevisibilidade regulatória, podendo reduzir exposição, pressionar o dólar e abrir a curva de juros. Mas parte relevante do Ibovespa é estruturalmente menos exposta: dominado por Vale (VALE3) e Petrobras (PETR4) (commodities isentas e precificadas globalmente) e bancos (negócio doméstico), como se viu na absorção dos choques de 2025 sem ruptura”, aponta.

Assim, o efeito real não é êxodo de capital, mas elevação do prêmio de risco na margem e limitação do teto de valorização. “O que pesa de verdade nos fluxos segue sendo a trajetória fiscal doméstica, o Fed e o ciclo de commodities; a tarifa é ruído aditivo sobre essa base”, reforça o especialista.

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