Ibovespa: surpresa com IPCA-15 faz índice subir 0,70%; mercado vê alívio, não vitória
Prévia da inflação sobe apenas 0,06% em julho, derruba os juros futuros e aumenta o apetite por risco na Bolsa, embora analistas alertem para riscos externos e impactos das tarifas dos EUA.
9/15/20263 min ler
O Ibovespa fechou em alta nesta segunda-feira, embalado pela divulgação de um IPCA-15 de julho significativamente mais fraco do que o esperado pelo mercado.
Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa subiu 0,7%, a 176.564,75 pontos, após marcar 175.326,40 na mínima e 178.538,64 na máxima do dia. O volume financeiro no pregão somou R$ 22,3 bilhões.
A prévia da inflação oficial avançou apenas 0,06% no mês, surpreendendo positivamente os investidores e reforçando a percepção de desaceleração dos preços no Brasil às vésperas da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que ocorrerá na próxima semana.
A leitura mais benigna da inflação ajudou a sustentar o apetite por risco no mercado local, em um movimento que contrastou com o ambiente de cautela observado recentemente no exterior. Além da valorização da Bolsa, os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) abriram em forte queda ao longo da curva, refletindo a expectativa de menor pressão sobre o Banco Central para manter uma política monetária mais restritiva.
Para Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, o dado trouxe um alívio importante para os investidores. Segundo ela, o resultado veio significativamente abaixo das estimativas do mercado e reforçou a percepção de uma inflação mais controlada, favorecendo os ativos domésticos. O movimento foi reforçado pela queda dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) e pelo recuo do petróleo após avanços diplomáticos envolvendo Estados Unidos e Irã.
Apesar da reação positiva, especialistas avaliam que um único dado de inflação não é suficiente para eliminar os riscos que seguem no radar do mercado, especialmente aqueles relacionados ao chamado “tarifaço” dos Estados Unidos e seus potenciais impactos sobre a economia global.
Na avaliação de Peterson Rizzo, head de Relações com Investidores da Multiplike, o resultado melhor do que o esperado ajuda o cenário de curto prazo, mas merece uma análise mais aprofundada. Segundo ele, parte da desaceleração foi influenciada por componentes mais voláteis, como alimentos e combustíveis, enquanto segmentos importantes, como serviços e preços administrados, continuam pressionados.
“O resultado representa um sinal positivo, mas dificilmente será suficiente, por si só, para alterar a decisão do Copom”, afirma. Para Rizzo, o Banco Central continuará observando um conjunto amplo de indicadores, incluindo expectativas de inflação, atividade econômica, comportamento do câmbio e projeções para os próximos anos.
A mesma cautela aparece na análise de Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset. Segundo ele, o IPCA-15 mais moderado reduz parte da pressão sobre a política monetária, mas não compensa integralmente os riscos associados às novas tarifas comerciais dos Estados Unidos.
Piran destaca que os efeitos dessas tarifas podem ocorrer em diferentes direções. Uma eventual desvalorização do real poderia elevar custos de insumos e produtos importados, pressionando a inflação. Por outro lado, produtos que deixarem de ser exportados aos EUA poderiam ser redirecionados ao mercado doméstico, ampliando a oferta interna e contribuindo para a queda de preços em alguns setores.
“Um IPCA-15 mais baixo melhora o ponto de partida, mas não blinda a economia brasileira de novos choques externos”, afirma.
A avaliação é semelhante à de André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital. Segundo ele, a surpresa inflacionária foi relevante o suficiente para melhorar a percepção sobre o cenário doméstico, mas ainda não permite declarar vitória sobre a inflação.
Para o executivo, a queda da inflação acumulada em 12 meses para 4,52% mostra que a política monetária restritiva segue produzindo resultados. No entanto, ele alerta que um eventual choque de câmbio, petróleo ou commodities poderia alterar rapidamente esse quadro. Caruso destaca ainda que parte relevante das exportações brasileiras ficou fora das novas tarifas americanas, reduzindo o potencial de impacto negativo sobre a economia local.
“O dado reduz a pressão por uma postura mais dura do Banco Central, mas dificilmente será suficiente, sozinho, para justificar uma flexibilização monetária”, afirma.
Já André Matos, CEO da MA7 Capital, observa que o principal risco para a inflação decorrente das tarifas americanas seria indireto, via câmbio. Segundo ele, como boa parte da pauta exportadora brasileira foi poupada das sobretaxas, o dólar reagiu de forma relativamente contida, impedindo uma deterioração mais forte das expectativas inflacionárias.
“Uma prévia mais fraca como essa, pouco antes da reunião do Banco Central, pesa a favor de quem defende seguir cortando os juros, ainda que o Comitê venha pregando cautela”, avalia.
Na mesma linha, Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, destaca que o resultado abaixo do esperado ajuda a reduzir parcialmente as projeções para a inflação de 2026, mas não elimina os riscos. Segundo ele, a inflação de serviços segue resiliente e o Banco Central continuará monitorando atentamente os impactos das tarifas sobre atividade, câmbio e expectativas.
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