Inflação supera teto em 0,52 p.p. e ameaça novo corte da Selic
A inflação acima do limite da meta aumenta a cautela do Banco Central e reduz o espaço para novos cortes na taxa básica de juros.
9/15/20263 min ler
Economistas vêem alta de 4,22% para 2027 e 3,8% em 2028
“Juro menor não significa imediatamente risco de crédito menor. A redução da Selic alivia despesas financeiras e pode melhorar o refinanciamento das empresas, mas a desaceleração da economia limita receitas e geração de caixa”, diz Gabriel Barca, head de relacionamento com investidores da Ouro Preto Investimentos, acrescentando que a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) mostra que este procura administrar a transição com cortes pequenos: “Flexibilizar o suficiente para impedir uma contração excessiva, sem reacender a inflação ou provocar deterioração das expectativas”.
Para José Alfaix, economista Da Rio Bravo Investimentos, a ata trouxe tom comparativamente mais agressivo que sua última divulgação. A despeito do corte, ele observa o crescimento de algumas preocupações que levaram o comitê a abandonar o forward guidance por ora. “As expectativas talvez sejam o ponto principal de incômodo do BC, uma vez que, mesmo a taxas tão restritivas, não observamos convergência nos prazos mais longos registrados pelo boletim Focus”. Mesmo com a queda do IPCA 2026, as projeções de inflação dos economistas seguem em 4,22% para 2027 e 3,8% em 2028. “Este último prazo é de maior preocupação para a autoridade monetária, uma vez que implica maior ceticismo do mercado no cumprimento do mandato inflacionário”, alerta Alfaix.
Cautela
Na opinião de alguns economistas, a Ata do Copom reforça uma postura de cautela do Banco Central, mesmo após a redução da Selic para 14% ao ano. O BC reconhece sinais mais claros de desaceleração da atividade econômica, mas ainda convive com um mercado de trabalho resiliente, inflação de serviços pressionada e expectativas acima da meta. André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital, é um dos que concorda com este raciocínio comentando ainda: “Entendemos que o ciclo de queda dos juros pode continuar, porém de forma gradual e totalmente dependente da evolução dos dados. O recado é que não há, neste momento, espaço para uma aceleração automática dos cortes. O IPCA recém-divulgado será particularmente importante para a próxima decisão. Um resultado abaixo do esperado, acompanhado de melhora nos núcleos e principalmente nos serviços, reforçaria o processo de desinflação e abriria espaço para mais um corte da Selic”.
Percepção de risco
Cortar a Selic é uma decisão do Banco Central; reduzir o custo efetivo do crédito depende também da percepção de risco sobre quem toma o recurso. A ata indica que o Copom reconhece a perda de força da atividade, mas ainda não enxerga segurança suficiente para transformar o corte de 0,25 ponto percentual em uma sequência automática. A leitura é de ”,Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, interpretando que essa cautela faz sentido “porque uma economia mais fraca produz 2 efeitos opostos: reduz a pressão da demanda sobre os preços, mas também pode limitar a receita e a capacidade de pagamento de famílias e empresas”. E continua: “Se o segundo efeito prevalecer, bancos e financiadores poderão manter spreads elevados mesmo com a taxa básica em queda. O IPCA de hoje será importante pela capacidade de mostrar qual desses processos está avançando. Uma desaceleração concentrada em alimentos teria impacto limitado sobre a decisão de setembro, pois não comprovaria que o aperto monetário atingiu a inflação ligada ao consumo”.
Pode se enganar quem pensa somente no ambiente interno, pressionado por eleições próximas. “O principal limite aos cortes brasileiros pode estar fora do Brasil”, assinala Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, advertindo que o tipo Brent de petróleo voltou à casa dos US$ 88 após subir cerca de 5% em 2 dias, enquanto os Treasuries de 10 anos se aproximaram de 4,7% e o mercado passou a dividir suas apostas sobre uma alta do Fed em setembro. “Essa combinação amplia o risco de inflação global e encarece o capital”, analisa, aduzindo em seguida: “Para o Copom, o problema não se resume ao custo do petróleo: juros americanos mais elevados reduzem a atratividade relativa dos ativos brasileiros. Se o diferencial de juros cair rapidamente, o câmbio pode absorver parte do ajuste e devolver inflação por meio de combustíveis, equipamentos e insumos importados. A ata evita sinalizar uma trajetória fechada justamente porque o cenário doméstico permite cortes, mas o externo pode retirar esse espaço”, conclui.
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