Mercado financeiro avalia impacto mais limitado com novo tarifaço
Governo norte-americano tem até 15 de julho para decidir sobre definição e aplicação da proposta de taxação de 25% dos EUA ao Brasil.
6/8/20263 min ler


A nova proposta de taxação de 25% dos Estados Unidos ao Brasil, apresentada na última terça-feira (2), é vista pelo mercado financeiro com mais cautela política e jurídica do que como um choque econômico imediato.
De acordo com o USTR (Representante Comercial dos Estados Unidos), as tarifas foram propostas com base nos termos norte-americanos da Seção 301, que permite que o país investigue e retalie outras nações contra práticas comerciais consideradas injustas. No caso do Brasil, políticas sobre comércio digital e desmatamento ilegal foram apontadas como passíveis de "medidas corretivas".
O governo dos EUA tem até 15 de julho para decidir sobre a definição e aplicação da proposta, que passará por consultas públicas e audiências antes da aprovação.
Embora a possibilidade de um novo tarifaço tenha reacendido preocupações sobre a relação bilateral, analistas consultados pelo CNN Money avaliam que o impacto tende a ser menor do que o observado no primeiro tarifaço de 2025, principalmente porque setores estratégicos da pauta exportadora ficaram de fora das medidas.
Entre os produtos excluídos estão carne bovina, café, aeronaves e componentes aeronáuticos, petróleo, minerais e diversos itens do agronegócio.
A preservação desses segmentos reduz significativamente os efeitos sobre o PIB (Produto Interno Bruto), a balança comercial e empresas brasileiras com forte exposição ao mercado americano.
A principal diferença em relação ao episódio anterior é que o país já acumulou experiência para lidar com esse tipo de barreira comercial, segundo Tania Gofredo, economista-chefe da GEP Brasil.
Para a especialista o choque de 2025 foi mais intenso porque pegou governos, empresas e investidores de surpresa. Desta vez, o mercado entende melhor os mecanismos de adaptação e diversificação das exportações.
“A balança comercial brasileira acabou diminuindo em relação ao volume do ano passado. Com o tarifaço [do ano enterior], houve uma redução no volume exportado para os Estados Unidos, porque esses produtos foram destinados a outros mercados. Na minha visão, a perspectiva não é pior, porque o Brasil vai encontrar esses caminhos novamente”, explica Gofredo.
Apesar da percepção de que os impactos econômicos podem ser limitados, o mercado demonstra preocupação com o caráter mais estruturado da nova ofensiva americana.
Diferentemente do primeiro tarifaço, que foi amplamente contestado na Justiça e acabou revertido, a nova proposta está baseada na seção 301, instrumento tradicional da política comercial dos Estados Unidos.
Para Rogério Freitas, head de investimentos do ASA, isso aumenta o risco de permanência das medidas e amplia a incerteza para empresas exportadoras brasileiras.
Segundo o economista, o mercado interpreta o novo processo como mais institucionalizado e, portanto, mais difícil de ser revertido rapidamente por vias judiciais ou diplomáticas.
Na mesma linha, Cassio Viana de Jesus, diretor de Investimentos e Negócios da Pilar Capital, avalia que a principal preocupação não está no tamanho da tarifa, mas na tentativa de reconstruir barreiras comerciais sobre uma base jurídica mais sólida.
"Tarifas protecionistas funcionam como um choque de oferta negativo, e o mercado tende a exigir um prêmio de risco maior enquanto não houver clareza sobre o alcance final das medidas, as exceções e as respostas dos países afetados", afirma o executivo.
A avaliação é compartilhada também por Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, que estima que o mercado vê o novo tarifaço mais como um problema de previsibilidade do que de tributação propriamente dita.
“O investidor não olha apenas para quanto será cobrado na fronteira, mas para a capacidade das empresas de planejar investimentos, contratos, margens e exportações. Quando essa previsibilidade diminui, o mercado exige mais prêmio para assumir risco Brasil”, afirma.
No mercado financeiro, os primeiros impactos tendem a aparecer justamente nessa percepção de risco.
Analistas apontam que a indefinição sobre as tarifas pode pressionar o câmbio, os juros futuros e as ações de companhias mais dependentes das exportações para os Estados Unidos, especialmente nos setores industrial, de máquinas, aço, madeira, móveis e componentes.
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